Ecoturismo e Finanças da Natureza: o setor hoteleiro brasileiro pode se tornar uma força real para a conservação da Amazônia?
Na COP realizada em Belém este ano, uma mensagem apareceu em praticamente todos os espaços: o Brasil precisa de novos modelos econômicos que tornem seus ecossistemas mais valiosos em pé do que transformados para outros usos.
Os hotéis já adotam práticas como redução de resíduos, uso racional de água e energia, além da escolha de materiais mais sustentáveis para diminuir impactos negativos. Mas, isoladas, essas ações ainda não geram uma contribuição efetivamente positiva para a paisagem.
A proposta aqui é outra: tratar a conservação da natureza como atividade econômica, saindo apenas da lógica de gestão da pegada de carbono para a geração de valor que mantenha as florestas em pé. Esse movimento está alinhado à evolução da agenda de reporte sobre natureza, que deixa de focar apenas em riscos e passa a enxergar também as oportunidades.
É aqui que entram as finanças da natureza: mecanismos que canalizam recursos reais para manter as florestas intactas. E o turismo é um dos poucos setores em que já existe demanda concreta e disposição para pagar pela natureza, simplesmente como natureza.
Atuo no setor de soluções baseadas na natureza, que busca atrair investimento privado para proteger e restaurar ecossistemas. A Amazônia é um exemplo de ecossistema premium: única, essencial para o clima global e está sob ameaça. Projetos de NbS geram créditos de carbono, mas a COP deixou claro que o carbono sozinho não atenderá às necessidades de conservação do Brasil.
O processo é lento, técnico e complexo e para as comunidades que já realizam o trabalho diário de proteção, isso é ainda mais desafiador.
Enquanto os fluxos do carbono são incertos, a procura por experiências em ambientes naturais cresce rapidamente no turismo. Viajantes buscam silêncio, autenticidade, natureza selvagem, profundidade cultural e uma sensação de originalidade e conexão.
Esses desejos só ficaram mais fortes em um mundo saturado de estímulos. O que começou com mochileiros hoje alcança o turismo de alto padrão, onde a receita por hóspede é alta, mesmo com baixo volume. É exatamente nesse ponto que o turismo pode se tornar peça-chave na equação da conservação.
A pergunta é: o turismo está, de fato, sentado à mesa onde se desenham os modelos de finanças da natureza para a Amazônia?
O valor da natureza intacta para o viajante e o diferencial do Brasil
O Brasil ainda possui algo que muitos países já perderam: ecossistemas vastos, conectados e culturalmente vivos.
Operadoras especializadas buscam experiências que proporcionem imersão em paisagens naturais preservadas, conexão com saberes tradicionais, trilhas, cachoeiras e observação de fauna sem aglomerações, bem-estar ligado à natureza, narrativas autênticas, participação em atividades regenerativas e vivências verdadeiramente raras.
Países como a Costa Rica construíram economias inteiras em torno desse tipo de turismo, mas já começam a enfrentar sinais de saturação.
No segmento premium, ecossistemas intactos se tornaram um verdadeiro atributo de luxo. Assim como o trekking com gorilas em Ruanda ou expedições no Himalaia, o valor está justamente na raridade.
O Brasil pode oferecer sua própria versão disso: florestas vivas, biodiversas, culturalmente ricas e remotas o suficiente para proporcionar uma experiência genuína de descoberta.
Além do carbono: o papel complementar do turismo
Quando bem planejado, o turismo gera receita direta e imediata para territórios de conservação. Ao contrário dos créditos de carbono, ele não depende de metodologias complexas ou de mercados internacionais. Pode atuar em conjunto com o financiamento via carbono e com a bioeconomia, reforçando a viabilidade da floresta em pé.
O turismo ainda traz um diferencial importante: os visitantes se tornam embaixadores de um modelo não extrativista. Ao vivenciarem na prática como a conservação acontece, ajudam a reforçar a credibilidade das soluções baseadas na natureza.
A questão é: de que forma o setor hoteleiro pode contribuir sem gerar danos ou distorções culturais?
Projetos voltados para o carbono cumprem um papel importante ao estabelecer salvaguardas, monitoramento e participação comunitária. Ainda assim, isso não elimina totalmente a pressão econômica pela conversão da terra.
Nos territórios de conservação, as comunidades já desenvolvem sistemas agroflorestais, produtos da bioeconomia, experiências culturais e turismo comunitário. Em projetos de alta integridade, essas atividades não são um complemento, mas uma peça essencial para viabilizar a conservação no longo prazo.
Segundo o novo padrão Equitable Earth — parte de uma geração mais recente de padrões que integram carbono, biodiversidade e impacto social — o turismo pode complementar projetos de conservação quando é estruturado para reforçar os incentivos já existentes à manutenção da floresta em pé. Como afirma Thibault Sorret, cofundador e CEO da Equitable Earth: “O ecoturismo pode ser compatível com projetos de carbono de alta qualidade quando fortalece, em vez de substituir, o incentivo para manter as florestas em pé.”
Para isso, é essencial assegurar salvaguardas de alta integridade. De acordo com a Equitable Earth (EE), modelos que combinam receitas de carbono e turismo devem demonstrar:
• Governança clara e livre de conflitos de interesse, com Consentimento Livre, Prévio e Informado (CLPI) e repartição justa de benefícios;
• Linhas de base e sistemas de monitoramento robustos, incluindo avaliação contínua dos impactos do turismo;
• Gestão dos riscos de vazamento e de permanência, garantindo que o turismo não reduza a adicionalidade do projeto.
É nesse ponto que o turismo pode fortalecer o que já existe. O setor hoteleiro pode potencializar iniciativas comunitárias, sobretudo quando a colaboração começa ainda na fase de planejamento da paisagem.
Quando as comunidades definem o núcleo das experiências e o hotel entra com logística, visibilidade, co-investimento e garantia de qualidade, o turismo reforça a governança local, em vez de substituí-la.
Como destaca a pesquisadora Dra. Monique Vanni, da Aliança NbS Brasil e da Wildlife Works: “O turismo só funciona quando as comunidades conduzem a narrativa e definem o que é compartilhado. Quando o turismo é desenhado de fora, vira extração.”
Para os hotéis, o papel é de apoio, não de protagonismo.
O ecoturismo também reforça as soluções baseadas na natureza: ao dar visibilidade às áreas de conservação, aumenta a confiança em projetos florestais de alta integridade e contribui para destravar o mercado de créditos de carbono.
O que hotéis e investidores podem fazer agora
A maioria dos hotéis já atua em territórios com forte presença de natureza. A oportunidade está em alinhar essas experiências à conservação e à liderança comunitária.
Colaborar no planejamento e na gestão territorial
Hotéis podem participar do planejamento das áreas, cocriar modelos de gestão, apoiar corredores ecológicos e integrar o valor turístico ao território.
Apoiar o turismo comunitário
Ao priorizar a compra de produtos locais, apoiar logística e capacitação, cocriar roteiros e abrir canais de marketing, hotéis fortalecem negócios comunitários. Aqui não se trata de parceria de marketing, mas de parceria real.
Integrar hóspedes à narrativa da conservação
Hotéis podem oferecer visitas guiadas, contar histórias locais, mostrar iniciativas de pesquisa e restauração e adotar projetos parceiros. Créditos de carbono de alta integridade podem ser incorporados como parte da experiência.
Entrar em coalizões de finanças da natureza
Em 2025, alianças entre desenvolvedores, financiadores, empresas e organizações comunitárias se consolidaram. O turismo precisa estar presente desde o início dessas articulações.
Trabalhar com parceiros de conservação reconhecidos
O exemplo da Inkaterra, no Peru, é emblemático. Além de operar hotéis na Amazônia, a organização mantém a Asociación Inkaterra, dedicada à conservação em Madre de Dios. A entidade capta recursos para pesquisa, articula produtores de madeira sustentável, iniciativas de bioeconomia e turismo, sempre com foco no capital natural. Trabalham com universidades e com organizações como The Nature Conservancy e Conservation International para criar inventários de biodiversidade e orientar o uso integrado da paisagem. Já atraíram investimento para ampliar atividades sustentáveis e desenvolver novos hotéis.
Os desafios e por que eles importam
Para que isso funcione na prática, é preciso reconhecer os desafios:
• complexidade regulatória em áreas protegidas e terras indígenas;
• exigências de licenciamento;
• limitações de acesso e infraestrutura;
• risco de distorções culturais;
• necessidade de repartição justa de beneficios;
• evitar modelos de turismo extrativista.
E, sobretudo, lembrar que, na Amazônia, tudo começa com relacionamentos. Comunidades não são “anfitriãs”. São parceiras na paisagem.
Uma visão mais colaborativa para a Amazônia
Imagine um hotel não como uma bolha isolada, mas como uma ponte entre o território e quem o visita:
• hóspedes exploram o entorno com guias locais;
• comunidades ocupam papéis de liderança;
• projetos de conservação dão estabilidade à paisagem;
• produtos e experiências fluem de forma orgânica para o hotel;
• pesquisa e monitoramento tornam-se parte visível da experiencia;
• as narrativas nascem de quem vive o territorio.
Esse modelo já existe em algumas iniciativas pontuais. O desafio agora é ampliar o valor gerado, não o número de visitantes.
O que o setor hoteleiro pode fazer a partir de agora
• construir parcerias de longo prazo com comunidades;
• participar da concepção inicial das paisagens de conservação;
• integrar projetos de conservação à identidade da marca;
• incorporar produtos e serviços comunitários na operação do hotel;
• oferecer aos hóspedes formas concretas de apoiar projetos florestais;
• integrar coalizões que estão moldando as finanças da natureza no Brasil;
• cocriar experiências ancoradas em cultura local e integridade ecológica.
Quando o setor hoteleiro ajuda a gerar valor para manter a floresta em pé, deixa de ser apenas beneficiário da beleza do Brasil e passa a ser parte ativa na construção do seu futuro.
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Stefanie Kaiser é consultora na interseção entre finanças da conservação, soluções baseadas na natureza, tecnologia e modelos econômicos comunitários. É cofundadora de uma empresa de conservação no Brasil e colabora com desenvolvedores de NbS, grupos de monitoramento de biodiversidade e parceiros do setor florestal. Contato: stefanie@kaiserenvironmentalmarkets.com | LinkedIn: /stefaniekaiser
Edição e adaptação para o português: Juliana Mesquita, arquiteta e estrategista à frente da Koncept, consultoria especializada em modelos de negócio para empreendimentos hoteleiros e turísticos sustentáveis.